12/07/2023 10h56min - Polícia
12 meses atrás

Violência ao vivo: delegados viram bebê “desmaiada”

Polícia queria provas contra dona de creche, mas decidiu invadir local

CGNews ► Na coletiva de imprensa delegada deu detalhes da Operação

Odilo Balta / jornalcorreiodosul@terra.com.br
Fonte: Campo Grande News


Delegados e investigadores de Naviraí viram e ouviram, ao vivo, bebê de 11 meses sofrendo agressões físicas e psicológicas em creche clandestina. Além disso, assistiram à menina ser dopada. Diante da violência e risco que crianças corriam nas mãos de Caroline Florenciano dos Reis Rech, de 30 anos, a equipe da Polícia Civil decidiu invadir a creche.

Conforme registrado no auto de prisão em flagrante da dona do “Cantinho da Tia Carol” e uma funcionária, depois de receber denúncia de maus-tratos no estabelecimento, a DAM (Delegacia de Atendimento à Mulher) de Naviraí, que apurava o caso, conseguiu autorização judicial para instalar câmeras escondidas na creche.

O trabalho foi feito pela Inteligência da Polícia Civil e, às 6h desta segunda-feira (10), equipe empenhada na investigação começou o monitoramento a distância. Além de investigadores, a delegada Sayara Quinteiro Martins Baetz, responsável pelo caso, e o adjunto do Departamento de Inteligência Policial, Gustavo Adolpho Bianchi Ferrari, assistiam ao que acontecia com as crianças.

De acordo com o registro policial, “logo no início da operação, às 10h35, a investigada Caroline agrediu fisicamente uma bebê, posteriormente identificada como menina* de 11 meses”. Segundo a descrição, pelo monitoramento em tempo real, foi possível ver que a criança estava em um colchão no chão, sozinha, e havia saído do local, momento que a cuidadora pega a pequena e joga de volta no acolchoado.

“Foi perceptível a violência empregada por Caroline, bem como a intenção de castigar a pequena criança em virtude do choro”, anotou a delegada Sayara Baetz, que redigiu o documento.

Minutos depois, às 10h48, a garotinha voltou a chorar e então, apanhou. Como o equipamento instalado no “Cantinho da Tia Carol” captava imagem e áudio, conforme registrado, a investigada xingou a criança de “sem vergonha” e comentou com a funcionária que quando a menina começasse a andar, “estavam lascadas”.

A bebê continuou chorando sozinha, mas logo parou. Neste momento, equipe da DAM foi enviada para ficar de prontidão próximo à creche caso fosse necessária intervenção rápida.

Os policiais que permaneceram na delegacia perceberam que as imagens não estavam sendo gravadas e diante da necessidade da coleta de provas, técnicos foram chamados para resolver a questão.

Quem assistia à câmera começou a estranhar que a menininha estava há muito tempo parada, não tentava se levantar do colchão, engatinhar ou se arrastar, parecendo estar dopada. Às 12h45, a funcionária de Caroline foi vista dando remédio à bebê, que logo dormiu.

A equipe do monitoramento notou ainda que as duas mulheres ficavam o tempo todo sentadas, mexendo no celular, sem olhar para as outras crianças no ambiente.

Mesmo constatando que boa parte das cenas não haviam sido gravadas, policiais decidiram invadir o local e prender a dupla. Encontraram duas meninas de 7 anos e outros dois bebês, um garoto de 1 ano e 9 meses e uma garota, de 1 ano.

“Os bebês estavam com fome e foram alimentados pela equipe policial”, também registrou a delegada.

A perícia e o Conselho Tutelar foram acionadas. No local, foi apreendido vidro de Dramavit, remédio para enjoo, vômito e tontura, mas que tem efeito sedativo. A cuidadora confessou à equipe que havia dado 20 gotas do medicamento para a bebê de 11 meses, dose provavelmente muito superior à necessária, já que a recomendação na bula é de uma gota para cada 1 kg. O medicamento também não é recomendado para menores de 2 anos.

De acordo com o registro, somente imagens de depois das 10h54 estão gravadas, mas cena em que Caroline aparece segurando a garotinha pelos cabelos e jogando em colchão ficou armazenada, além do momento que a criança é medicada pela funcionária, que disse em depoimento ministrar dose ordenada pela patroa, para que a criança dormisse.

Considerando todos os fatos expostos, verificou-se que a bebê de 11 meses apenas por acordar de um sono aparentemente induzido, provavelmente por necessidades fisiológica, como alimentação ou troca de fralda, e por chorar, maneira com a qual pode se comunicar, já que ainda não tem capacidade de falar, era castigada. Sendo submetida a verdadeiras sessões de tortura”, constatou Sayara Baetz.

A responsável pelo inquérito afirma que “pôde-se perceber, ainda, sofrimento mental, esse ainda pior, pois não deixou marcas visíveis, haja vista que a criança era xingada e menosprezada pela cuidadora [Caroline], que após torturá-la a deixava chorando sozinha”.

Prisão preventiva – Carol, como é conhecida, se apresentou à polícia como profissional do sexo e já tem ficha criminal. No fim da tarde desta terça-feira (11), o juiz Paulo Roberto Cavassa de Almeida decidiu manter a dona da creche presa para a “garantia da ordem pública, dada a gravidade concreta dos fatos, consubstanciada pela violência contra crianças”.

Para o juiz, a mulher pode cometer outros crimes se for solta. “A indiciada possui extensa ficha criminal a indicar se tratar de pessoa de má índole, perigosa e com possibilidades concretas de reiteração delituosa. Além disso, tendo em vista a potencial facilidade de acesso, tanto às crianças, que ainda não foram submetidas a exames periciais, bem como quanto aos respectivos familiares, mantê-la em liberdade, ao menos por ora, seria uma medida temerária, sendo necessária a sua retirada cautelar do convívio social, não vislumbrando que outra medida cautelar diversa seja suficiente e adequada”.

A funcionária pagou fiança de R$ 1.320,00 (um salário mínimo) e deixou a delegacia, mas o juiz registrou que poderá “reexaminar” a ideia de permitir que ela responda a inquérito e processo em liberdade.

A reportagem tentou contato com Caroline através do número de celular deixado por ela em anúncios de vagas para a creche, mas ninguém atendeu. Recado foi deixado na caixa postal. Além disso, o espaço segue aberto para manifestações da defesa ou da investigada. 

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